dia da favela Favela Racismo reflexões

Chance em favela é escolha social

Sexta-feira passada foi o Dia da Favela. A data remete à história do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, que no dia 4 de novembro de 1900 se tornou a primeira comunidade chamada de “favela” em um documento oficial.

Mais de um século depois, essa história ainda não teve final feliz. Pelo contrário, os números indicam que a tragédia está se agravando. Em uma década, passamos de pouco mais de 6 mil favelas (2009) para quase 14 mil (2019). O censo deste ano deve revelar um crescimento ainda maior dessas comunidades.

Visto por esse ângulo, o Dia da Favela é um convite mais à reflexão do que à celebração. Reflexão sobre o racismo e a exclusão social, que marcam a história do país. Sobre como as escolhas políticas dos últimos cem anos fizeram com que a sociedade brasileira aceitasse e naturalizasse a existência de territórios nos quais a dignidade humana não está assegurada.

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debate eleições Favela presidente

O debate que queremos

O Brasil vive uma das eleições mais tensas e polarizadas da sua história. Para quem duvida, basta assistir a um trecho qualquer dos últimos debates presidenciais. Debates são oportunidades preciosas para a sociedade discutir os rumos do país. É o momento em que o eleitor médio, mesmo aquele meio avesso à política, sintoniza sua TV para escutar o que cada candidato tem a dizer.
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corrida especial desigualdade Favela FavElon

Ei, Elon, vem com nóis!

O que um astronauta e um morador da favela têm em comum? À primeira vista, são dois tipos que não poderiam ser mais diferentes um do outro. Mas eles são iguais no essencial: ambos dependem da cooperação para sobreviver no ambiente hostil que enfrentam. 

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Combate à pobreza desigualdade social empreendedorismo Favela

Rebeldes com causa

O trabalho do terceiro setor só existe graças aos empreendedores sociais. Toda forma de engajamento é importante, mas são esses indivíduos, cujo escritório fica dentro da favela, que viabilizam o combate à pobreza nos quatro cantos do país.

Eles têm algo que não pode ser comprado ou simulado: a vivência no território. São líderes que conhecem pelo nome as famílias mais pobres das suas quebradas. Lembram a cor da casa de cada uma delas e sabem dizer se o chão ali é de terra batida ou de piso. Quando alguma criança não consegue vaga na creche, ou quando alguém descobre um problema de saúde, prontamente a notícia chega à sua atenção.

O “olho no olho” com a população local coloca esses empreendedores em uma posição destacada para criar soluções disruptivas de combate à pobreza. Eles são nossos maiores inventores – nossos “rebeldes”, “encrenqueiros”, como gostava de definir Steve Jobs. Dia após dia, eles desenvolvem tecnologias sociais pioneiras. Com coragem, baseados em sua vivência prática, sem medo de errar e aprender, eles testam cotidianamente jeitos inovadores de desarmar a bomba relógio da pobreza e da desigualdade.

Por isso é tão importante valorizar seu trabalho. Uma das metas da Gerando Falcões é identificar essas pessoas extraordinárias e ajudá-las a acelerar suas habilidades. Nosso braço educacional, a Falcons University, existe justamente para que as ONGs da rede possam construir modelos de gestão mais profissionais, em linha com o que as grandes empresas praticam, e desenvolver plenamente as competências sociais e emocionais de suas lideranças.

Mas isso não basta. É preciso convencer a sociedade do verdadeiro tesouro que os empreendedores sociais representam. O Brasil segue preso a um modelo tradicional, ultrapassado, de dinheiro pelo dinheiro, a qualquer custo. Medidos por critérios estritamente financeiros, esses líderes comunitários, de fato, não têm ainda muita expressão. Trato aqui de pessoas que muitas vezes precisam decidir se pagam o aluguel ou a conta de luz atrasada de suas ONGs. Seus “empreendimentos” não estão listados na Bolsa de Valores.

No entanto, se houvesse uma bolsa que negocia o valor social e ambiental das instituições, não tenho dúvida de que o IPO dessas ONGs bateria recordes. É essa mensagem – cada vez mais consensual entre os próprios agentes do mercado em todo o mundo – que precisamos reforçar no Brasil.

O Encontro Nacional de Favelas, realizado nesta semana em São Paulo, será uma boa oportunidade para isso. O evento reúne cerca de 600 líderes sociais de todas as regiões do país. Por meio da arte, da poesia, da música e, principalmente, das histórias inspiradoras dessas pessoas, vamos (re)aprender como é possível, sim, construir novas maneiras de construir o enfrentamento às desigualdades.

Esses líderes são a prova de que o Brasil precisa valorizar mais a sua gente. Eles representam um país vibrante, criativo, generoso e não podem ficar esquecidos. Esses são, afinal, nossos grandes inventores. Enquanto alguns dos melhores cérebros do mundo recebem todo o suporte necessário para concretizar o sonho de colonizar Marte, nossos “rebeldes” e “encrenqueiros” precisam de ainda mais apoio para cumprir uma missão bem mais urgente: transformar a pobreza da favela em peça de museu

coluna edu

cultura Favela música

Cultura da favela e seus estilos musicais

Antes de mais nada: você já parou para pensar em quantos estilos musicais nasceram da cultura da favela brasileira?

Então, resolvemos pegar alguns deles e contar um pouquinho de suas histórias. Entenda como nasceu o samba, o rap e o funk nas favelas do Brasil.

Samba: um símbolo da cultura da favela

A cultura da favela que levou a música brasileira para o mundo foi o samba. Aliás, levou o Brasil para Marte, onde astronautas colocaram Beth Carvalho para tocar. Mas o ritmo musical que hoje é uma das marcas da cultura brasileira e da favela começou com o velho preconceito.

Segundo historiadores, o samba nasceu do ritmo de 2 grupos africanos: os bantos, originários da África Central, e os iorubás, que chegaram da África Oriental. A união do ritmo e a introdução das religiões africanas na cultura brasileira foram os pontos cruciais para o samba se solidificar.

Origem do Samba, um símbolo da cultura da favela

No século XIX, o Rio de Janeiro era a capital do Império. Então, a cidade maravilhosa passou a comportar uma leva de negros vindos de outras regiões do Brasil, sobretudo da Bahia. Eles levaram seus batuques para os aglomerados em torno das religiões africanas, em que atuavam mães e pais de santo.

O primeiro samba gravado foi Pelo Telefone (Donga), de 27/11/1916, nas rodas de criação dos terreiros. Até então, era um ritmo escondido, tocado apenas nas favelas e nos arredores da Praça 11. Aliás, quem fosse pego tocando samba seria “tocado” direto para a cadeia.

Os sambas-enredo e a cultura da favela na avenida

Nos anos 30, o preconceito começou a mudar de figura. Artistas brancos, como Noel Rosa, fizeram com que o ritmo da favela começasse a ser aceito. A origem do cantor se deu no mesmo período do surgimento dos primeiros desfiles das escolas de samba.

Além disso, o governo de Getúlio Vargas viu no samba uma espécie de “fumacê positivo” para o seu autoritarismo. No começo, os músicos improvisavam 2 sambas – um na ida e outro na volta da avenida. O ritmo era mais cadenciado e o samba-enredo era pautado pela História do Brasil. 

Noel Rosa e Ary Barroso: samba, cultura da favela e poesia

Nos anos 20, além das escolas de samba, Noel Rosa foi o primeiro que trouxe a cultura viva da favela para a sociedade. Na junção do boêmio carioca de poesia com samba, Rosa lançou sucessos cantados no Carnaval até hoje, como, por exemplo, Com que Roupa (1929), Fita Amarela (1932) e Conversa de Botequim (1935).

Noel Rosa e Ary Barroso: samba, cultura da favela e poesia

Outro sambista que elevou o ritmo cultural da favela de patamar foi Ary Barroso, compositor de um dos maiores clássicos da MPB, Aquarela do Brasil. Quando cantada na voz de Carmen Miranda, a canção conquistou Hollywood e transformou Ary em compositor da Disney.

Cartola e Nelson Sargento: a cultura da favela e o preconceito

Não podemos esquecer Cartola, Nelson Sargento e outros sambistas negros. Os dois citados são dos primórdios da Estação Primeira de Mangueira. Cartola começou compondo sambas que fizeram sucesso na voz de cantores como Ataulfo Alves e Carmen Miranda. Entretanto, só foi reconhecido pelo público no final de sua vida.

Já Nelson Sargento foi músico, poeta, pintor e presidiu o grupo de compositores da Mangueira. Além disso, foi pesquisador da música popular brasileira. Assim como Cartola, só foi reconhecido no final de sua vida, gravando seu primeiro disco solo aos 55 anos. Nelson Sargento morreu em 2021 aos 96 anos.

Cartola e Nelson Sargento: a cultura da favela e o preconceito

Muitos estudiosos apontam que o preconceito racial foi um dos fatores que fizeram com que músicos desse porte só fossem reconhecidos nos últimos anos de vida. Sargento compôs mais de 400 canções, enquanto Cartola foi autor de clássicos, como O Mundo é um Moinho (1976), O Sol Nascerá (1974) e As Rosas Não Falam (1976).

Os “filhos” do samba

Desde então, o samba foi responsável pela criação de vários subgêneros. Nos anos 50, tivemos a introdução do violão da bossa nova de João Gilberto. Na década de 70, Tim Maia e Jorge Ben Jor misturaram a música negra americana com o samba, trazendo o samba soul e o samba-rock para nossa discoteca e enriquecendo a cultura da favela.

Nos anos 80, nasceu o pagode. Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho e outros sambistas trouxeram de volta a cultura da roda de samba e a cultura da favela para as músicas mais tocadas do país.

RAP: da Jamaica para as favelas de São Paulo

Não foi só no Rio de Janeiro que a cultura da favela transformou a música brasileira. Em São Paulo, as favelas que ficam nas margens da capital mais rica do país também tiveram sua participação. O rap veio dos Estados Unidos e logo ganhou um tempero local, cantando o jeitinho e a dor do brasileiro das favelas.

Mas, peraí, por que no título você colocou Jamaica? Calma…

O rap pode ter vindo dos Estados Unidos, mas o ritmo nasceu na Jamaica. Então, nos anos 60, grupos de músicos se juntavam em festas de rua nos guetos do país da América Central. Elas surgiram pelo nascimento dos amplificadores de som. Eles democratizaram as festas, tornando possível fazer uma balada na boate ou na rua do gueto.

Cultura da favela: rap da Jamaica para as favelas de São Paulo

Os donos dessas “baladas” eram DJs, conhecidos como toasters. Então, eles colocavam todo mundo para dançar com base em palavras rimadas e reggae. A princípio, os temas eram descontraídos, porém, com o passar do tempo, eles começaram a falar sobre questões políticas e sociais.

Além disso, as batalhas de improviso também surgiram nessa época. Quem não concordasse com o que um toaster vinha rimando, podia cantar e desafiá-lo com outros versos.

O rap e as favelas de São Paulo

Nos anos 80, o rap aterrissou em São Paulo, mais especificamente na Estação São Bento, onde Jr. Blaw começou a improvisar. Entretanto, há quem diga que o rap veio dos repentistas nordestinos, que já faziam suas rimas há tempos. 

O fato é que a música de origem jamaicana, que já conquistava a cultura negra norte-americana, se consolidou apenas nos anos 90. Em São Paulo, nasceu o Racionais MC’s, grupo de Mano Brown, que teve seu nome inspirado por Tim Maia e seu disco, Tim Maia Racional.

Racionais trazendo a cultura das favelas para suas rimas

Dessa forma, os Racionais colocaram o dedo na ferida em relação à violência e à pobreza das favelas de São Paulo. Mano Brown virou a maior inspiração para outros músicos, como Marcelo D2, do Planet Hemp, que mistura rap com rock e samba. Além disso, tivemos nomes como MV Bill, Sabotage, Emicida, Rashid, Criolo e Negra Li, a musa do rap.

Enfim, todos eles vindos das periferias e trazendo a cultura das favelas para suas rimas.

Funk com F de favela

Foi quando Cartola e Nelson Sargento começaram a aparecer no cenário musical nacional que outro filhote musical da cultura das favelas começou. Nos anos 70, o charme começou a ser levado para as festas das favelas cariocas. Um ritmo que ganhou tempero tupiniquim e virou febre nacional.

“Musicalmente falando, a diferença é que o funk é um ritmo mais acelerado, mais despojado e o charme mais suingado, cadenciado, que tem muita sensualidade”, explica o DJ Michel, em matéria publicada no G1.

O funk começou em formato semelhante ao do rap, com letras que escancararam a desigualdade social e os problemas das favelas e periferias cariocas. Porém, com o passar dos anos, as letras foram ficando mais românticas, fazendo o ritmo ganhar mais seguidores. Hoje, o funk é o maior representante da cultura das favelas no cenário do pop nacional.

Cultura da favela e a origem do Funk com F de favela

De acordo com DJ Marlboro, para muitos, o pai do funk: 

“O Rio de Janeiro, de tempos em tempos, já observei que acontece de 50 em 50 anos, ele cria um novo tipo de música. Teve o samba, 50 anos depois tivemos a bossa nova, 50 anos depois o funk, daqui a 50 anos deve ter alguma coisa nova aí do carioca surpreendendo a gente.”

A cultura da favela circular

Na Gerando Falcões, queremos trazer uma nova veia cultural para a favela: a autossustentabilidade. Assim, com o Bazar da GF, queremos mostrar como a favela pode se estruturar, garantindo receita e produtos com até 70% de desconto em comparação com o mercado tradicional.

Dessa forma, você pode comprar CDs, livros, camisetas, móveis, além de produtos da nossa marca própria, ou doar produtos de qualidade.

cultura da favela circular e o bazar GF

Quem sabe você não acha aquele vinil do Cartola ou do Racionais?

Além disso, quem sabe você não doa pra gente aquelas roupas em bom estado que não cabem mais em você?

Acesse agora o nosso site!

#tamojunto

Confira também: Qual foi a primeira favela do rio de janeiro

AAA

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Pedras de esperança

No ano passado, visitei em Washington o memorial de Martin Luther King, o ativista pelos direitos civis dos negros americanos que se tornou um dos maiores líderes de causas sociais do século XX. Exposta num parque, a enorme rocha de granito de onde emerge sua figura recortada nos obriga a elevar o olhar. Na lateral, lê-se: “Da montanha de desespero, [surge uma] pedra de esperança”. É um trecho do famoso discurso em que ele falava do seu sonho de ver negros e brancos convivendo harmonicamente.

Não deixa de ser simbólico que o monumento tenha sido inaugurado, em 2011, por Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos — um país que, como o Brasil, tem sua história manchada pela escravidão. Foram sementes plantadas por lideranças lúcidas e corajosas como Luther King que permitiram ao país superar leis de segregação que vigoraram até poucas décadas atrás.

A visita me levou a refletir sobre nossa situação. Vivemos num país racista. Sei, até por experiência própria, que é raro um negro que não tenha sido vítima de uma humilhante história de racismo. Feita a constatação, porém, é o caso de perguntar: quais pedras de esperança deixaremos às próximas gerações, para que elas construam edifícios sociais menos desiguais e injustos?

A tarefa é árdua, temos que lidar com uma herança maldita de séculos. Estou lendo com grande interesse o primeiro volume de “Escravidão”, de Laurentino Gomes, e aprendendo sobre as origens das mazelas sociais brasileiras.

Violência urbana e desigualdade racial

A escravidão de africanos não é comparável a escravidões anteriores descritas pela história. O componente racial, o caráter comercial, a escala industrial, tudo isso tornou a escravidão de negros um fenômeno tão único quanto abjeto. Ao longo dos séculos, 12 milhões de seres humanos foram sequestrados e traficados para as Américas. Desses, cerca de 5 milhões vieram para cá. O Brasil extinguiu formalmente a escravidão com a Lei Áurea, em 1888, mas nunca se preocupou em fazer a inclusão social da população negra.

Saiba mais sobre Os Direitos Humanos no Brasil

Os resultados dessa escolha são visíveis ainda hoje a qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade social. As estatísticas são eloquentes. Embora os negros sejam 54% da população, representam 78% do décimo mais pobre dos brasileiros. No alto da pirâmide social, a situação se inverte: entre o 1% mais rico da população, nem 18% são negros.

E mais: a grande maioria dos profissionais com maior qualificação, como engenheiros, médicos e advogados, é branca. Nas 500 maiores empresas do país, negros ocupam 4,7% dos cargos de direção e 6,3% dos cargos de gerência. Pouco mais que 9% da população negra tem pelo menos 12 anos de estudo (em comparação a 22% dos brancos). Além disso, num país violento como o nosso, um homem negro tem oito vezes mais chance de ser vítima de homicídio que um homem branco.

Luther King foi uma pedra de esperança para a população negra dos Estados Unidos. Precisamos, da mesma maneira, tirar uma lasca da nossa montanha de desespero e ajudar a construir um futuro melhor para todos, independentemente da cor da pele de cada um.

Coluna publicada no jornal O Globo 01/02/2022

Combate à pobreza Energia Solar esg Favela MEIO AMBIENTE Tecnologia urbanização

Favela solar

As últimas semanas nos deram amostras do potencial destrutivo de eventos climáticos extremos. As cenas de cidades submersas na Bahia, em Minas Gerais e no Norte ficarão coladas em nossas retinas cansadas de testemunhar desastres evitáveis. As chuvas intensas, aliadas à estiagem no Sul, foram manifestações locais de uma crise ambiental e social que desconhece fronteiras.

Esses fenômenos, que tendem a ficar cada vez mais frequentes, nos colocam em uma encruzilhada. Nossa geração é provavelmente a última que tem a oportunidade de fazer algo para alterar de maneira significativa o rumo das mudanças climáticas. Ignorar essa responsabilidade equivale a sentenciar as próximas gerações a um futuro de incerteza.

 Ajude agora as vítimas das tempestades

Se nada for feito, resta torcer para que funcione a empreitada de colonizar Marte, propagandeada por Elon Musk, o bilionário fundador da SpaceX – se bem que duvido que os brasileiros mais pobres pegariam carona nessa arca da salvação interplanetária. A solução para a crise ambiental passa por Marte, sim, mas não o distante planeta frio – eu me refiro à favela tropical ensolarada.

Gerando Falcões no combate à vulnerabilidade social

Marte, em São José do Rio Preto (SP), ganhará infraestrutura de placas solares que a tornará a primeira favela do Brasil totalmente autossustentável em geração de energia elétrica. É um projeto pioneiro na América Latina e, talvez, no mundo. Com cerca de 240 residências atendidas, a instalação dos equipamentos será custeada pelo Banco BV, que dá assim um exemplo de como transformar a tão falada agenda ESG (ambiental, social e governança) em ação prática.

A autonomia energética sustentável da Marte é parte do projeto da Favela 3D (digital, digna e desenvolvida), implementado pela Gerando Falcões, que busca transformar aquela comunidade em uma verdadeira base de lançamento de tecnologias sociais. Lá, testamos projetos pioneiros para primeira infância, empoderamento feminino, capacitação profissional, reurbanização e muito mais. Na Marte também estamos implementando o projeto Decolagem, que busca soluções personalizadas e mais eficientes de combate à pobreza, com a ajuda de algoritmos e da ciência de dados. Acredito que todos os agentes sociais – governos, iniciativa privada, organizações da sociedade civil – deveriam perder o medo de implementar ideias ou tecnologias pela primeira vez.

Não se trata de vaidade de querer chegar primeiro – nossa luta, afinal, é coletiva. A questão é que a crise atual pede soluções que ainda estão por ser inventadas. Nesse sentido, temos a obrigação de inovar. Nosso compromisso com as próximas gerações é apostar em conceitos disruptivos que permitam não apenas melhorar processos, mas levem a verdadeiros saltos de desenvolvimento humano e social. Essa é a escala em que devemos atacar nossos problemas.

O combate à pobreza e a proteção ao meio ambiente são agendas que precisam andar de mãos dadas. Com a transformação da Marte na primeira comunidade solar e autossustentável do Brasil, damos mais um passo na direção de um futuro melhor para nossos filhos e netos – e sem depender de vaga em foguete de gringo.

Coluna publicada no Jornal O Globo em 18/01

Combate à pobreza desigualdade social Favela

O que é vulnerabilidade social?

Em primeiro lugar, o conceito de vulnerabilidade social é multifacetado, complexo e diz respeito ao contexto econômico e social de determinado indivíduo ou grupo, relacionado ao seu nível de fragilidade moral e/ou material. Então, pode-se dizer que uma pessoa não nasce vulnerável, mas torna-se pela falta de acesso e apoio da sociedade e do governo.  

De acordo com todas as compreensões do termo, existem diversos processos de exclusão social até a violação dos direitos desses indivíduos e grupos. Isso de acordo com o nível de renda, a localização geográfica, saúde, educação, etc. 

Entretanto a vulnerabilidade social define-se por pobreza, privação, fragilização de vínculos afetivo-relacionais e de pertencimento social. Além disso, a situação de vulnerabilidade social tem relação direta com o resultado negativo entre a estrutura material e o acesso a oportunidades socioeconômicas e culturais que provêm da sociedade, do mercado de trabalho e do Estado. Desse modo existem alguns tipos de vulnerabilidade social, destacados a seguir.

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2022 Ano novo Favela Retrospectiva

Ano novo, favela nova!

Ano-Novo é sempre um bom momento para refletir sobre o passado e projetar o futuro. O ano de 2021 foi trágico para os brasileiros. Atingimos a marca de mais de 600 mil vidas perdidas para a Covid-19, com uma crise econômica e social que trouxe de volta antigas mazelas, como a fome.

Foi um ano de dificuldades, mas também de aprendizado. A sociedade brasileira parece ter amadurecido a ideia de que o combate à pobreza é uma responsabilidade coletiva, com consequências diretas sobre a vida de todos nós. Diante da tragédia da pandemia, quebramos recordes de doações e demos visibilidade inédita ao trabalho do terceiro setor, especialmente das entidades que atuam na ponta e conhecem de perto o dia a dia das periferias brasileiras.

O que mais espero para 2022? Que esse impulso de solidariedade se transforme numa verdadeira tomada de consciência, fazendo com que todos os atores sociais se engajem no combate à pobreza de maneira permanente. Sempre digo que o sentimento que promove mudança social não é a culpa, mas a responsabilidade.

Edu Lyra na Favela Marte, primeira favela 3D do Brasil.

Nós, que atuamos na área social, também temos muito trabalho pela frente. É preciso explorar com muito mais afinco as possibilidades abertas pelas novas tecnologias aplicadas a uma agenda social.

Nos últimos dois anos, a Gerando Falcões mobilizou mais de R$ 100 milhões para o combate à fome, doados por cerca de 120 mil pessoas no Brasil e no exterior. Todo esse montante foi arrecadado via campanhas digitais.

Lançamos também o Programa Decolagem, em parceria com a Accenture e aporte de R$ 1 milhão da Fundação Lemman. A ideia central do programa é colocar a ciência de dados a serviço do combate à pobreza, reunindo informações de famílias moradoras de favelas e, com a ajuda de algoritmos, desenvolver estratégias personalizadas de intervenção. O Decolagem é uma ação social piloto, pensada para combater a pobreza de maneira mais efetiva, não massificada, e para evitar o retorno a situações de vulnerabilidade.

Edu Lyra e sua mãe, dona Gorete em Nova York

O ano de 2021 também foi aquele em que a Gerando Falcões deu voos internacionais. Realizamos dois jantares de arrecadação nos Estados Unidos, um em Nova York e outro em Miami. Foram eventos que reuniram parte do PIB nacional para discutir a importância de contribuir com a redução das desigualdades em solo brasileiro.

Para além dos valores arrecadados, pude formar uma rede de contatos no exterior, firmar parcerias para a Gerando Falcões e, é claro, afiar meu inglês. Pude também conhecer de perto a cultura de filantropia madura que existe na sociedade norte-americana, um exemplo que deveria inspirar nossas elites e nossa classe média.

Tudo isso me permite olhar com otimismo para 2022. Em primeiro lugar, entendo que o universo digital não chegou para “competir” com o elemento humano, mas para nos ajudar a construir um novo mundo possível. A tecnologia é a chave para construirmos uma nova favela — digna, digital e desenvolvida.

Que venha, então, mais um ano! Em 2022, estou ansioso para testar ideias inovadoras, algumas até consideradas malucas, e descobrir quão longe podemos fazer avançar a agenda social em nosso país. Quero continuar tentando, aprendendo e inovando. Vaikidá!

Favela pobreza Tecnologia terceiro setor

Combate à pobreza é tech

Você já ouviu falar de NFT? É uma sigla em inglês para non-fungible token, ou “token não fungível”. Traduzindo: é a representação digital (token) de um ativo de caráter exclusivo, único, insubstituível, como uma obra de arte — ou seja, um ativo “não fungível”.

Num mundo digital, em que podemos copiar e compartilhar indefinidamente qualquer conteúdo, o NFT funciona como um certificado de autenticidade, protegido pela mesma tecnologia usada nas criptomoedas, conhecida por blockchain, a comprovar que determinado indivíduo possui o “original” de uma obra de arte virtual.

O que isso tem a ver com o combate à pobreza no Brasil? Muito mais do que pode parecer à primeira vista. Quase todo final de semana passo pelo menos uma hora conversando com Leonardo Framil, presidente da Accenture na América Latina, um amigo que sempre tem muito a me ensinar sobre tecnologia. Ele insiste na importância de a Gerando Falcões se antecipar às tendências e de não ter medo de testar o novo. Eu, que sou apenas um aprendiz nesse universo, tento seguir seus conselhos.

transformação digital

 

Na semana passada, promovemos, com a BMW e o artista Gabriel Wickbold, o primeiro leilão de NFTs do Brasil. Gabriel produziu cinco obras virtuais e, nesse encontro com jovens empresários em São Paulo, arrecadamos R$ 300 mil. A interseção entre arte, negócios e tecnologia é uma maneira inovadora de levantar recursos para combater a pobreza.

Confesso que, no começo, fiquei apreensivo com a ideia. Afinal, como seria possível organizar um leilão sem objetos físicos? Quem iria querer comprar uma obra de arte para colocar não na sala de casa, mas na “nuvem”? Será que o evento daria certo?

Foi preciso vencer resistências. Estamos diante de um mundo novo, cada vez mais digital, que precisa ser rapidamente assimilado por nós, do terceiro setor. Conceitos como NFT, criptomoeda, blockchain, metaverso e outros podem ser enigmáticos para quem não cresceu imerso na cultura digital. Mas têm de chegar à favela, onde podem se transformar em armas poderosas de combate à pobreza e de fomento a novos modelos de negócios.

Leia agora nosso post sobre transformação digital e o terceiro setor

No setor ambiental, é possível adquirir tokens que representam uma árvore plantada e, pelo metaverso — um ambiente digital, onde a comunidade de doadores pode interagir e acessar algumas funções exclusivas —, acompanhar o crescimento dessa árvore em tempo real.

Por que não importar soluções parecidas para a favela? Em vez da simples doação, seria possível adquirir um token representativo do valor necessário para transformar uma vida — um ativo que se valoriza à medida que as condições de vida num território melhoram. Ou construir metaversos em que a comunidade de doadores pudesse acompanhar em tempo real a construção de casas ou a implementação de projetos sociais.

Sou apenas um aprendiz, mas aprendo rápido. O sucesso do primeiro leilão de NFTs no Brasil mostrou que as novas tecnologias abrem caminhos promissores não apenas de captação de recursos, mas também de gestão inteligente e segura desses recursos.

Também sou otimista. Sinto que ferramentas como os NFTs podem viabilizar um salto qualitativo para erradicar a pobreza. Basta estarmos dispostos a aprender e a abraçar o novo.

Coluna publicada em 21/12/2021 no Jornal O Globo

Confira também: 5 curiosidades sobre a corrida espacial

coluna edu

desigualdade social Favela Tecnologia

Competindo com robôs

Num mundo globalizado, é comum que decisões tomadas no Vale do Silício, em Pequim ou Bruxelas afetem mais nosso país do que aquelas saídas de Brasília. Ou que uma criação tecnológica patenteada por uma universidade alemã ou sul-coreana vire de cabeça para baixo o funcionamento da economia nacional. No debate sobre inovação, o Brasil ainda está em busca de um assento na mesa dos adultos, e essa falta de protagonismo nos coloca em posição de risco.

Para a população da favela, creio que o maior desses riscos é a automação. A substituição da mão de obra por robôs e drones multiplicará o rol de habilidades mínimas exigidas pelo mercado. Vagas em galpões, serviços de entrega e linhas de montagem desaparecerão, reduzindo a oferta de trabalho para quem tem menos escolaridade.

Veja :5 preconceitos que assombram a empregabilidade

A história de uma amiga, Talita Ribeiro, ilustra bem os riscos — mas também as oportunidades — da automação da economia. Recém-divorciada, ela se mudou para Delaware, nos Estados Unidos, e passou a trabalhar num armazém da Amazon. Conheceu gente do mundo inteiro, de todas as classes sociais. Ficou fascinada pelos robôs — braços de metal gigantes, articulados — e pelas esteiras, verdadeiras veias daquele organismo. Guiada pela curiosidade, entrou para um programa de aprendizado em mecatrônica e robótica mantido pela própria empresa. Era o início de uma nova carreira. Muitos cursos e muitas horas de estudo depois, hoje minha amiga — uma das poucas mulheres na sua área — é responsável pela manutenção dos robôs.

Talita pôde trilhar esse caminho porque teve incentivo para se qualificar. Mas disse estar preocupada com suas antigas colegas de trabalho — mulheres negras, latinas, imigrantes — que não poderiam conciliar uma rotina de estudos com seus dois ou três empregos. Está ciente de que, no médio prazo, o emprego dessas pessoas está sob risco.

Populações socialmente vulneráveis — do imigrante nos EUA ao morador de favela no Brasil — precisam de políticas públicas que garantam sua chance de requalificação profissional diante do tsunami da automação. Robôs são mais eficientes, o que é bom para o mundo dos negócios. Não há como competir com eles. O que temos de fazer é requalificar a mão de obra para as pessoas não se tornarem supérfluas nessa mudança inevitável.

Quando o escritor Yuval Harari esteve no Brasil, perguntei-lhe o que deveríamos ensinar hoje aos jovens das periferias. Yuval ponderou que é muito difícil pensar numa resposta, pois, dado o ritmo da evolução tecnológica, algo ensinado hoje poderá estar obsoleto em uma década. A possibilidade de erro é muito alta.

Ele então sugeriu que, antes de ensinarmos qualquer coisa, nos preocupássemos em ampliar o repertório emocional dos jovens, para que eles saibam lidar com a possibilidade, absolutamente real, de que suas profissões podem desaparecer em questão de anos — e, mesmo assim, tenham força interior para se reinventar e construir novas carreiras.

O Brasil tem pela frente esse grande e urgente desafio. Combater a pobreza, afinal, é também garantir que os jovens da periferia tenham condições de competir no ambiente cada vez mais tecnológico e automatizado que se desenha para as próximas décadas.

Texto publicado no Jornal O Globo, em 07/12

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