bolsa família Combate à pobreza PEC de Transição políticas públicas

Transferir renda é pontapé inicial

Desde o encerramento da eleição presidencial, há pouco mais de um mês, um assunto domina o noticiário político brasileiro: a chamada PEC da Transição.

Dado que o orçamento de 2023 já está fechado, o governo eleito negocia saídas para custear alguns investimentos e, sobretudo, para continuar pagando o valor integral do Auxílio Brasil, que agora volta a se chamar Bolsa Família.

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Copa do Mundo cultura brasileira futebol Qatar

Chance de ouro

A bola está rolando no Qatar. Para quase todo brasileiro, Copa é sinônimo de casa cheia nos dias de jogo da nossa Seleção, com amigos e familiares reunidos em torno da TV, atentos a cada lance, sofrendo ou explodindo de alegria.

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dia da favela Favela Racismo reflexões

Chance em favela é escolha social

Sexta-feira passada foi o Dia da Favela. A data remete à história do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, que no dia 4 de novembro de 1900 se tornou a primeira comunidade chamada de “favela” em um documento oficial.

Mais de um século depois, essa história ainda não teve final feliz. Pelo contrário, os números indicam que a tragédia está se agravando. Em uma década, passamos de pouco mais de 6 mil favelas (2009) para quase 14 mil (2019). O censo deste ano deve revelar um crescimento ainda maior dessas comunidades.

Visto por esse ângulo, o Dia da Favela é um convite mais à reflexão do que à celebração. Reflexão sobre o racismo e a exclusão social, que marcam a história do país. Sobre como as escolhas políticas dos últimos cem anos fizeram com que a sociedade brasileira aceitasse e naturalizasse a existência de territórios nos quais a dignidade humana não está assegurada.

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Corinthias eleições Flamengo futebol

Vencedores e perdedores?

Na quarta-feira passada, Corinthians e Flamengo se enfrentaram na final da Copa do Brasil. Como sou corintiano roxo, queria muito que o Timão vencesse, especialmente porque conseguimos levar a disputa para os pênaltis em pleno Maracanã lotado.

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debate eleições Favela presidente

O debate que queremos

O Brasil vive uma das eleições mais tensas e polarizadas da sua história. Para quem duvida, basta assistir a um trecho qualquer dos últimos debates presidenciais. Debates são oportunidades preciosas para a sociedade discutir os rumos do país. É o momento em que o eleitor médio, mesmo aquele meio avesso à política, sintoniza sua TV para escutar o que cada candidato tem a dizer.
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Brasil desenvolvimento social Nobel prêmio Nobel

Geração Nobel

Andei perguntando para amigos: “Por que o Brasil não tem um prêmio Nobel?”. É difícil chegar a uma conclusão racional e efetiva. Há muitos ângulos a serem analisados. Peter Drucker, considerado o pai da administração moderna, disse que mais importante do que as respostas são as perguntas. Pois percebi que a pergunta acima, com foco no que deixamos de fazer como país, não induz a qualquer ação. Então decidi mudar a pergunta: “Como criar uma geração Nobel em nosso país?”.

Recentemente o escritor e roteirista Antônio Prata colocou a reflexão em números. Prepare-se para a sensação de constrangimento. A Albânia tem 3 milhões de habitantes e 2 prêmios Nobel. A Suécia, com 10 milhões, tem 31. Argentina: 45 milhões, 4. Irlanda, 5 milhões, 8. O Brasil tem 213 milhões de habitantes e nenhum Nobel. Fosse uma Copa do Mundo, teríamos perdido de lavada para todas essas seleções.

Mas vamos continuar mais um pouco com a imagem do futebol. O Brasil tem cinco títulos mundiais. Nenhum outro país tem tantas conquistas. A Alemanha e a Itália, empatados em segundo lugar, têm quatro cada. O que explica o nosso sucesso nessa área? A resposta está na mais básica aritmética, e tem a ver com quantidade. Eu nasci em favela e sei que o sonho da maioria dos moleques – por muito tempo, hoje menos – foi ser jogador de futebol. Ora, se há milhões de crianças e adolescentes jogando na rua e treinando duro nos campos de várzea, é provável que a cada milhão de atletas surja pelo menos um supercraque.

menino com camiseta de futebol

O mesmo se aplica a outras áreas. Ou seja, precisamos aumentar exponencialmente nossos “candidatos” a Nobel. Uma geração pretendente ao Nobel pode ajudar o Brasil a ir para outro patamar nos índices de desenvolvimento social, na proteção do nosso patrimônio ambiental, na equidade racial, na educação universalizada e de qualidade. Um pretendente a Nobel faz um bem gigante ao país. Temos uma lista fabulosa de brasileiros indicados: Barão do Rio Branco, Carlos Chagas, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, dom Helder Câmara, Clarice Lispector, Chico Xavier, Irmã Dulce, Betinho, Marechal Rondon – este indicado por Franklin Roosevelt, presidente dos EUA, e endossado por ninguém menos do que Albert Einstein. A briga é dura. No ano em que Betinho foi indicado, 1994, os vencedores foram os políticos israelenses Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Em 1988, ano da indicação da Irmã Dulce, a vencedora foi a ONU. 

Já houve 121 edições do Prêmio Nobel e apenas 31 indicações de brasileiros. É como se tivéssemos um indicado a cada quase quatro anos. Precisamos ampliar o número de candidatos. Para tanto, temos que estimular a nova geração, construindo oportunidades de qualidade – da infância à vida adulta. Estamos muito atrasados. Pesquisa da Branding Brasil apontou que 55% dos brasileiros entre 16 a 20 anos morariam em outro país se pudessem. 

favela

Se algum brasileiro vencer o Nobel, muitos outros virão atrás, porque vai se expandir a consciência do que é possível fazer. É como dizia Ronald Reagan, ex-presidente dos EUA: “Se não nós, quem? Se não agora, quando?” Quero fazer parte de uma geração Nobel. Um dia o Ronaldo Fenômeno quis a Bola de Ouro. Muitos se recordam que ele venceu três vezes, mas poucos talvez se lembrem que ele não passou na última peneira do Flamengo porque faltou ao último teste por não ter dinheiro para a condução. Às vezes, um futuro craque ou Prêmio Nobel depende de um passe – um passe metafórico que só a sociedade, unida e solidária, pode conceder.

*Coluna publicada pelo Jornal O Globo em 27/09/2022

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Edu Lyra Biografia

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Viva a insensatez

Ouvi do meu amigo Nizan Guanaes, publicitário, empreendedor e grande filantropo, uma frase que me marcou profundamente: “O homem sensato se adapta ao mundo; o homem insensato adapta o mundo”.

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Filantropia 2.0

Quando estive nos Estados Unidos, no ano passado, uma das coisas que mais me surpreendeu foi a maneira como aquele país se relaciona com a agenda social e o terceiro setor. Há uma cultura de filantropia muito bem estabelecida por lá, o que contagia da classe média aos bilionários.

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Ei, Elon, vem com nóis!

O que um astronauta e um morador da favela têm em comum? À primeira vista, são dois tipos que não poderiam ser mais diferentes um do outro. Mas eles são iguais no essencial: ambos dependem da cooperação para sobreviver no ambiente hostil que enfrentam. 

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Doação para ONG: confira como é simples realizar esse ato

A doação para ONGs (Organizações Não Governamentais) é um bom hábito a ser adotado no dia a dia, pois, a partir dele, você assume um compromisso enquanto cidadão e ajuda a mobilizar a sociedade para a causa social escolhida.

Atualmente, é fácil encontrar instituições voltadas para os mais diversos temas e áreas, então basta escolher a que você mais se identifica para fazer a doação. Para realizar esse ato, aconselha-se consultar as orientações sobre o processo diretamente na instituição desejada.

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Pobreza até quando?

Regra básica de qualquer manual de administração: para se atingir um objetivo, é preciso estabelecer prazos. A ausência de um deadline significa que a tarefa em questão não é prioritária e, portanto, pode esperar. Não há empresa no mundo que ignore a importância de um bom cronograma, com data de início e fim dos trabalhos, para o sucesso de uma ação. 

Qualquer um pode intuir esse princípio elementar, que se aplica também à nossa vida pessoal. Quando planejamos uma viagem, uma reforma em casa ou a compra de um bem mais valioso, como um carro, um dos primeiros passos é decidir quando pretendemos atingir nossa meta. Sem um prazo, é mais difícil se organizar financeira e até psicologicamente. 

Pergunte a qualquer liderança política, empresarial e social se ele ou ela concorda que o Brasil deve fazer o possível para erradicar a pobreza. Tenho certeza de que quase todos responderão que sim. Questione então qual prazo mais adequado para o país dar conta desse objetivo: dez anos, quinze, cinquenta? A resposta provavelmente será o silêncio.

Por que não estipulamos uma data-limite para acabarmos com a pobreza extrema no Brasil, assim como fazemos com quaisquer outros desafios? Vivemos em uma sociedade que estabelece prazos até para a conquista de Marte. O que falta para encararmos o problema da pobreza com a mesma seriedade?

Longe de ser mera provocação, trata-se de uma questão prática. Prazos criam senso de urgência e nos ajudam a entender o quão rápido estamos avançando. Com isso, entendemos também onde erramos e o que podemos aprimorar para nos aproximarmos da meta. 

O Brasil fechou o último ano com um PIB estimado de R$ 8,7 trilhões, segundo o IBGE. O Orçamento do país está na casa dos R$ 4,7 trilhões. A maior parte desses recursos está comprometida, mas ainda assim encontramos espaço para financiar uma série de ações, incluindo as de cunho eleitoral. 

Só há uma conclusão possível: um país que se recusa a atacar de frente suas mazelas sociais, mesmo contando com esse Orçamento, elegeu a pobreza como sua principal política pública. 

A Gerando Falcões deve ser uma das únicas instituições do mundo com prazo de validade. Estipulamos um máximo de cinquenta anos para colocar a pobreza da favela no museu, o que tornará dispensável a nossa própria existência enquanto ecossistema do terceiro setor. Meio século, o tempo de apenas duas gerações. É por isso que temos pressa para encontrar uma solução inovadora, financeiramente viável e replicável em larga escala para um problema que vem assolando o Brasil há séculos. 

Estamos trabalhando para não falhar. Mas, se isso viesse a acontecer, tenho certeza de que outras lideranças apareceriam, com ideias ainda melhores e mais inovadoras que as nossas. A pobreza será vencida, nem que seja pela teimosia heroica do povo da favela.  

O que mais importa é que decidimos encarar de verdade o problema, estabelecendo metas temporais que nos obrigam a agir aqui e agora, em vez de naturalizarmos a pobreza e a desigualdade, tratando-as como coisas fadadas à permanência. 

Essa deve ser a atitude de uma sociedade realmente comprometida com uma agenda social. O combate à pobreza, se for pra valer, precisa de deadline.

*Coluna publicada pelo Jornal O Globo em 02/08/2022

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Edu Lyra Biografia

Desemprego Favela 3D Fome pobreza

Strike na pobreza

Diz a sabedoria popular que o bolso é a região mais sensível do corpo humano. Quando ele esvazia, experimentamos imediatamente a perda da autoestima, o medo do futuro, a fome. A ausência de uma fonte de renda é um nervo exposto.

Claro que inclusão social não se faz apenas pela renda. A noção de cidadania engloba as esferas da saúde, educação, lazer, moradia e do combate ao racismo e à desigualdade de gênero. Sem isso tudo, formamos meros consumidores, não cidadãos.

Mas a renda é o primeiro passo para a inclusão social. Pense num jogo de boliche: a bola lançada na pista não pode derrubar cada pino individualmente, mas, ao acertar o pino certo, provoca uma reação em cadeia. O mesmo vale para a falta de renda. Ela é o pino no qual devemos mirar nossas políticas sociais se quisermos realizar um strike na pobreza.

Por isso o programa Favela 3D, para além da construção de moradias e das ações de reurbanização dos territórios, tem a meta de zerar o desemprego nas comunidades em que está sendo implantado.

Dados concretos amparam essa preocupação: enquanto o desemprego no Brasil está em elevados 12%, nas favelas ele chega a mais de 50%. Uma redução drástica nesse número ajuda a quebrar a lógica da desigualdade, pois coloca a favela como referência em melhoria de indicadores sociais.

Voluntariado em SP - Gerando Falcões

Uma mudança desse porte exige ações em várias frentes. Na favela Marte, em São José do Rio Preto (SP), e na Sonhos, em Ferraz de Vasconcelos (SP), ambas pioneiras do programa Favela 3D, construímos verdadeiras fábricas de formação profissional, conectadas tanto aos interesses e vocações da população local quanto às necessidades econômicas de cada região.

Promovemos a capacitação técnica em áreas como vendas, logística, elétrica, alimentação, informática. Em poucos meses, vimos florescer startups, cooperativas de costura, hortas comunitárias e projetos de coleta de recicláveis. Os empresários da região, por sua vez, firmaram o compromisso público de priorizar a contratação de mão-de-obra da favela, contribuindo para alcançarmos o pleno emprego.

Os resultados são impressionantes. Já conseguimos bater mais de 40% da nossa meta. Nesse ritmo, pretendemos zerar o desemprego naqueles territórios até o final deste ano.

Isso muda completamente o clima da favela. O morador que vê seus vizinhos conseguindo um emprego sabe que ele pode ser o próximo. Essa percepção concreta de que a vida está melhorando funciona como uma injeção de autoestima na comunidade. Com renda, a favela volta a sonhar.

Renda é sinônimo de autonomia. Ela permite que o morador da favela se liberte da prisão de segurança máxima da pobreza, podendo, não raro pela primeira vez na vida, fazer escolhas conscientes e planejar seu futuro.

Quando alguém não sabe se conseguirá pagar o aluguel, comprar um medicamento ou mesmo garantir a próxima refeição para seus filhos, toda sua concentração se volta para as demandas imediatas. Quem tem fome não consegue traçar planos de médio e longo prazo. Consequentemente, não cria condições para um dia sair da pobreza.

Uma fonte de renda quebra esse círculo vicioso. Logo, investir na inclusão produtiva da favela não melhora apenas suas condições de vida hoje, mas garante que as gerações futuras viverão em um país mais justo e igualitário.

 

*Coluna publicada pelo Jornal O Globo em 08/06/2022

Favela 3D Marte urbanização

Sem saudade da maloca

Se o senhor não tá lembrado, a demolição de malocas traz a marca da injustiça social. Adoniran Barbosa captou toda a tragédia da situação ao contar o caso de três amigos que, impotentes, apenas apreciavam a face mais cruel da especulação imobiliária diante do desmonte do lugar onde viviam. “Que tristeza que nós sentia/ Cada tauba que caía doía no coração”.

Essa é uma cena que, num futuro que já aponta no horizonte, terá espaço apenas num Museu da Pobreza. Sim, porque a realidade identificada pela sensibilidade do cronista já está sendo transformada. Na favela Marte, em São José do Rio Preto (SP), muita “tauba” vai cair a partir do próximo mês – e os moradores, hoje cheios de esperança, estarão felizes.

Como assim? Bem, dá licença de contar.

Num trabalho inédito – feito de dentro para fora e de baixo para cima – uma rede de colaboradores deu um passo importante para mudar essa história. Lá, o projeto Favela 3D (Digna, Digital e Desenvolvida) entra em fase crucial: a reurbanização total do território. Até a metade do ano, as 240 famílias do local serão abrigadas em imóveis alugados, abrindo caminho para a demolição da favela e a construção de um novo bairro a partir do zero.

O projeto das novas moradias foi escolhido em parceria com os próprios moradores, de acordo com suas preferências e necessidades. Além da infraestrutura, a Marte reurbanizada contará com quadras, espaços de lazer, centros culturais, uma Praça da Cidadania e até um Museu da Pobreza, dedicado ao registro da transformação da favela. O caráter único do projeto já despertou o interesse de pesquisadores na USP e na Universidade de Fudan, em Xangai (China).

Conduzidas pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), as obras devem durar cerca de um ano e meio. O custo total do projeto será repartido entre o governo paulista (50%), a prefeitura de São José do Rio Preto (25%), responsável pelas obras de infraestrutura, e a Gerando Falcões (25%). As famílias, por sua vez, pagarão a fundo perdido prestações equivalentes a 20% de sua renda, independentemente do tamanho dessa renda, em troca da titularidade das casas.

Um projeto dessa envergadura só pôde decolar graças a um imenso trabalho de equipe nos bastidores. Contamos com as lideranças locais, como Benvindo Nery, presidente da Associação de Moradores, e Amanda Oliveira, CEO do Instituto As Valquírias. Envolveram-se também o ex-governador João Dória, o governador Rodrigo Garcia e o prefeito de São José do Rio Preto, Edinho Araújo. Mas centenas de outros profissionais se engajaram na empreitada, de arquitetos aos técnicos das Secretarias de Habitação estadual e municipal, que agilizaram o licenciamento das obras; das empresas parceiras aos juízes e promotores que facilitaram a regularização fundiária, possibilitando que os moradores tenham escritura de seus imóveis.

É a sinergia entre esses atores que viabiliza o sonho da Favela 3D. A revolução serve de modelo para iniciativas similares em todo o país. Marte é prova de que, quando coordenados, o poder público, a iniciativa privada e o terceiro setor podem encontrar saídas para a superação da pobreza estrutural.

É ali, seu moço, que vamos começar a construir um país mais próspero – e mais justo.

 

*Coluna publicada pelo Jornal O Globo em 24/05/2022

 

Escalando montanhas

“Uma liderança social é como um alpinista escalando uma montanha”. A analogia é de Jorge Melguizo, ex-secretário de Desenvolvimento Social e Cultura Cidadã de Medellín, na Colômbia, cidade que passou por um dos mais arrojados processos de transformação social do continente nas últimas décadas.

De primeira, fiquei intrigado com a comparação. Que relação teria o trabalho de uma ONG, por exemplo, com um esporte radical? Jorge então explicou que, ao desbravar uma montanha pela primeira vez, o alpinista vai fincando grandes “pregos” na lateral da rocha, nos quais ele apoia sua corda e seus equipamentos de segurança.

Terminada a escalada, o que acontece com esses pregos? Permanecem na montanha. Eles servirão agora de apoio para outros aventureiros, que poderão utilizá-los para apoiar novas cordas e, assim, alcançar seus objetivos com mais facilidade.

O alpinista não busca, portanto, apenas uma realização pessoal – ultrapassar seus próprios limites e vencer a montanha. Sua função mais importante é encontrar e construir uma trilha para aqueles que virão depois. É facilitar o caminho de todos os que desejam chegar ao topo, por mais desafiadora que a jornada possa parecer.

Essa talvez seja a mensagem mais importante trazida pela analogia: o líder social não precisa necessariamente chegar ao topo de sua montanha intangível. Ainda que ele falhe, ficam o exemplo e o aprendizado, para que a próxima geração, muito mais bem preparada, possa reiniciar o caminho em direção a uma sociedade mais justa.

A reflexão do colombiano Jorge não poderia ser mais oportuna para nós, brasileiros. Com o crescimento galopante da pobreza, da desigualdade, do desmatamento e de tantos outros problemas, precisamos de agentes sociais com a coragem necessária para desbravar as montanhas mais altas.

A razão é simples: as mazelas sociais brasileiras são tão profundas que apenas projetos ousados, tidos como impossíveis à primeira vista, serão capazes de superá-las. É preciso testar soluções novas e mais eficientes de combate à pobreza. O país não pode se dar ao luxo de comemorar melhorias tímidas, graduais, pois a população da periferia, que voltou a conviver com o espectro da fome, tem pressa.

A Colômbia, terra de Jorge Melguizo, é um bom exemplo de como vale a pena escalar as montanhas mais altas. Medellín já foi uma das cidades mais violentas do mundo. Com políticas públicas inovadoras, apoiadas no incentivo a projetos culturais e na integração com agentes comunitários, os índices de criminalidade caíram drasticamente.

Leia nosso post sobre a reurbanização de Medellín

O Brasil também tem algumas montanhas enormes a serem desbravadas. Quando a Gerando Falcões começou a implementar o programa Favela 3D na comunidade Boca do Sapo, em Ferraz de Vasconcelos (São Paulo), uma das primeiras ações sugeridas pelos moradores foi renomear a favela. O antigo nome feria sua dignidade, sua autoestima.

O novo nome, escolhido por eles, foi Favela dos Sonhos – e penso que não poderiam ter ficado com uma opção mais apropriada. Porque é lá que iremos zerar a taxa de desemprego, a fila nas creches, os índices de analfabetismo. Queremos que as melhores taxas de crescimento de qualquer indicador social do Brasil sejam registradas nos locais impactados pelo Favela 3D. Esse é o tipo de montanha que a Gerando Falcões decidiu escalar.

  • Artigo publicado em 12/04 no Jornal O Globo.

Colaboração é a única saída para resolver problemas do planeta

A humanidade enfrenta uma das maiores encruzilhadas da História. A desigualdade global vem crescendo, assim como a pobreza e o número de favelas. Cresce também a devastação da natureza, com consequências ainda imprevisíveis sobre o clima do planeta, a agricultura e a segurança alimentar de toda a nossa espécie. Somam-se a isso os desafios impostos pela tecnologia, como o advento da automação, que pode empurrar milhões de pessoas para o desemprego.

Temos no horizonte enormes questões sociais e ambientais que só poderão ser encaradas por meio da colaboração. Instituições globais, governos, empresas, organizações sociais e cidadãos comuns precisam se juntar para produzir soluções novas, mais eficazes, para nossos problemas concretos.

A ideia de que um único ator social tem a chave para resolver todas essas mazelas não têm espaço neste complexo século XXI. Alguns olhariam para o mercado, com sua “mão invisível”, como ferramenta ideal para lidar com a questão social. Outros diriam que cabe ao Estado essa tarefa. Alguns apostariam ainda em soluções locais, baseadas em pequenos grupos comunitários, enquanto o outro lado lembraria a importância dos grandes organismos internacionais. Na verdade, é a colaboração entre essas muitas esferas que pode criar saídas para o labirinto da pobreza e da desigualdade.

A valorização das parcerias é particularmente importante hoje, quando o conceito de ESG (Ambiental, Social e Governança, na sigla em inglês) se torna consenso no universo corporativo. Mais empresas buscam desenvolver projetos sociais, por isso mesmo é necessário reforçar que a favela não precisa de “salvadores”, mas de parceiros. Ela quer aprender, mas também tem muito a ensinar. O mercado precisa entender que investir na periferia é, sim, um bom negócio — do ponto de vista social e econômico.

A favela precisa de colaboradores, de gente que a ajude a desenvolver, com sua própria força e criatividade, novas fontes de riqueza e saídas inovadoras para suas mazelas. O caminho para isso está na sinergia entre empresas, agentes públicos, terceiro setor e nas próprias lideranças comunitárias. Só assim conseguiremos desenvolver tecnologias sociais de combate à pobreza qualitativamente melhores, adequadas aos desafios do nosso tempo, em vez de repetirmos modelos criados no século passado ou retrasado.

Por isso o “tamojunto” é uma das palavras de ordem na Gerando Falcões. Há muito tempo existe um muro entre o mercado brasileiro e a periferia, mas já passou da hora de ele ser derrubado. Um dos maiores desafios do terceiro setor é construir pontes, garantindo a cooperação entre todos os atores sociais em torno do objetivo de erradicar a pobreza.

Longe de ser uma estratégia restrita à área social, a valorização do esforço colaborativo é uma tendência generalizada, que corresponde às necessidades do nosso tempo. Os grandes desafios deste século pedem respostas complexas que só poderão ser encontradas coletivamente. Mais do que nunca, a união faz a força. Quem não souber trabalhar em sistemas de parcerias se tornará obsoleto e perderá relevância. Nos próximos anos, colaboração será questão de sobrevivência.

  • Artigo publicado em 29/03 no Jornal O Globo.

Confira também: como ajudar as pessoas | Responsabilidade Social Individual

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Acelerando Sonhos

Enquanto o plano inusitado de viajar até Marte recebe manchetes, missões mais urgentes e menos complicadas aqui na Terra, como o combate à pobreza, não têm merecido a mesma atenção. É para tentar corrigir um pouco essa distorção que logo mais Amanda Oliveira, fundadora e CEO das Valquírias, da rede Gerando Falcões, e eu embarcaremos para a Inglaterra. No final do mês, promoveremos um jantar filantrópico em Londres, que contará com a presença de cerca de cem investidores. A arrecadação será aplicada em projetos sociais em favelas do Brasil. 

O evento não poderia acontecer sem a ajuda da vibrante comunidade brasileira que vive em Londres, que vem nos ajudando a construir pontes com o Reino Unido. Ele tampouco sairia do papel sem os parceiros da Brazil Football Foundation, uma organização sem fins lucrativos sediada na capital britânica e que apoia diversos projetos sociais voltados à comunidade brasileira. 

O jantar é fruto da garra da nossa equipe londrina de voluntários, incansáveis na busca de patrocínio, tenazes nos contatos com doadores em potencial. É uma gente valorosa que não enjeita o trabalho duro, de formiguinha. Seu trabalho, de ampliação de uma rede de solidariedade, pode não ter tanta visibilidade quanto o de um Elon Musk, com seus foguetes de última geração, mas, na minha opinião, é muito mais importante e urgente. São eles que ajudam a encontrar soluções para problemas que já deveriam ter sido extintos há décadas, como a pobreza e a fome. 

Os resultados desse trabalho já aparecem há algum tempo. O jantar da Gerando Falcões em Londres é o terceiro do gênero. No final do ano passado, organizamos eventos similares em Nova York e Miami, com a ajuda decisiva de Maurício Morato, diretor executivo da Gerando Falcões nos Estados Unidos. Nessas ocasiões, encontrei sempre a mesma situação: uma comunidade sensível aos problemas do Brasil e disposta a fazer sua parte. 

Com iniciativas assim, a voz e o olhar da favela chegam ao chamado “primeiro mundo”. Essa é a importância de construir pontes, de encontrar novas maneiras de garantir que cada um assuma sua parcela de responsabilidade perante as mazelas sociais. Daí a importância também de se entender que a pobreza é um problema global. A miséria em qualquer parte é uma ameaça à segurança e à estabilidade de todas as sociedades. 

Já tratei neste espaço do projeto Favela 3D, que a Gerando Falcões está implementando como um piloto em São José do Rio Preto (SP), buscando construir tecnologias sociais inovadoras de combate à pobreza. Essa é a nossa Marte – a favela, não o planeta. É preciso fazer com que as elites globais, em particular a comunidade brasileira que mora no exterior, entenda que esse tipo de projeto não diz respeito a um punhado de pessoas na periferia de São Paulo, mas ao mundo inteiro. 

A pobreza rouba, sobretudo, oportunidades. Quando nos fascinamos com a perspectiva de viajar pelo espaço, devemos lembrar que o próximo salto tecnológico que irá viabilizar esse sonho pode vir justamente de um garoto ou garota da favela. Enquanto os foguetes não decolam, vou a Londres tentar acelerar esse sonho.

Confira também: como ajudar as pessoas 

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Partiu Marte

No mês que vem, embarco em direção a Marte. Estarei acompanhado por uma tripulação de cerca de 140 pessoas, entre executivos, empreendedores, formadores de opinião, artistas e líderes sociais. A viagem será curta: devemos pisar o solo avermelhado e pedregoso uma hora e meia após a decolagem.

Meu destino é a Favela Marte, em São José do Rio Preto (SP), onde a Gerando Falcões está implementado o programa Favela 3D — digital, digna e desenvolvida. Deixo a conquista do planeta para Elon Musk e seus incríveis engenheiros da SpaceX, dedicados a uma corrida espacial que envolve bilhões de dólares. Nossa corrida é social.

Não temos uma fração da capacidade de investimento de uma Nasa, claro, mas conseguimos costurar um acordo entre o governo de São Paulo, a prefeitura da cidade e a iniciativa privada para financiar o desenvolvimento humano e social daquela comunidade. Serão R$ 52 milhões aplicados com o objetivo central de descobrir maneiras novas e eficientes de superar a pobreza. Tudo decidido com a participação ativa de representantes da favela, que dividiram a mesa de negociações com o governador João Doria e o prefeito Edinho Araújo.

Como o planeta, a favela com chão de terra vermelha oferece um ambiente hostil à vida. Não há água potável nem energia elétrica. Não há saneamento básico, nem espaços que garantam a sobrevivência humana digna. Até a infraestrutura pública se equipara à do planeta — é inexistente.

Ora, é inaceitável que as periferias brasileiras sejam quase tão inóspitas quanto um distante corpo celeste. No projeto da nossa Marte, sob liderança de Amanda Oliveira e Benvindo Nery, os símbolos da pobreza extrema serão derrubados, dando lugar a casas com placas solares, praças com wi-fi, laboratórios avançados de formação humana, espaços de cultura, lazer e esporte. A população terá acesso a cuidados de saúde para a primeira infância, a uma horta urbana, a empreendimentos comunitários.

Porém, antes de aplicarmos o melhor da tecnologia social à transformação da realidade da Marte, é preciso que os atores sociais de fora conheçam como a favela é hoje. Em primeiro lugar, para entender a importância do investimento em políticas de superação da pobreza. Em segundo, para que possam voltar lá em 2023 e avaliar a profundidade das mudanças. Por isso levo uma tripulação tão numerosa.

O Favela 3D, implementado como projeto-piloto, é nossa plataforma de lançamento para a corrida social. Nada contra aqueles que se dedicam à corrida espacial. Pelo contrário, admiro sua ousadia e compreendo a importância dessas empreitadas para o desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade.

Mas é uma questão de prioridades. Em julho de 1969, como mostra o documentário “Summer of Soul”, candidato ao Oscar, os milhares de negros reunidos no Festival Cultural do Harlem estavam mais preocupados com a penúria em que viviam naquela quebrada de Nova York do que com a chegada do homem à Lua.

Aqui e agora é a mesma coisa. Marte, o planeta, pode esperar. Marte, a favela, não. Quem tem fome — de “comida, diversão e arte” — tem pressa.

Coluna publicada no dia 15/02 no Jornal O Globo

 

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Pedras de esperança

No ano passado, visitei em Washington o memorial de Martin Luther King, o ativista pelos direitos civis dos negros americanos que se tornou um dos maiores líderes de causas sociais do século XX. Exposta num parque, a enorme rocha de granito de onde emerge sua figura recortada nos obriga a elevar o olhar. Na lateral, lê-se: “Da montanha de desespero, [surge uma] pedra de esperança”. É um trecho do famoso discurso em que ele falava do seu sonho de ver negros e brancos convivendo harmonicamente.

Não deixa de ser simbólico que o monumento tenha sido inaugurado, em 2011, por Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos — um país que, como o Brasil, tem sua história manchada pela escravidão. Foram sementes plantadas por lideranças lúcidas e corajosas como Luther King que permitiram ao país superar leis de segregação que vigoraram até poucas décadas atrás.

A visita me levou a refletir sobre nossa situação. Vivemos num país racista. Sei, até por experiência própria, que é raro um negro que não tenha sido vítima de uma humilhante história de racismo. Feita a constatação, porém, é o caso de perguntar: quais pedras de esperança deixaremos às próximas gerações, para que elas construam edifícios sociais menos desiguais e injustos?

A tarefa é árdua, temos que lidar com uma herança maldita de séculos. Estou lendo com grande interesse o primeiro volume de “Escravidão”, de Laurentino Gomes, e aprendendo sobre as origens das mazelas sociais brasileiras.

Violência urbana e desigualdade racial

A escravidão de africanos não é comparável a escravidões anteriores descritas pela história. O componente racial, o caráter comercial, a escala industrial, tudo isso tornou a escravidão de negros um fenômeno tão único quanto abjeto. Ao longo dos séculos, 12 milhões de seres humanos foram sequestrados e traficados para as Américas. Desses, cerca de 5 milhões vieram para cá. O Brasil extinguiu formalmente a escravidão com a Lei Áurea, em 1888, mas nunca se preocupou em fazer a inclusão social da população negra.

Saiba mais sobre Os Direitos Humanos no Brasil

Os resultados dessa escolha são visíveis ainda hoje a qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade social. As estatísticas são eloquentes. Embora os negros sejam 54% da população, representam 78% do décimo mais pobre dos brasileiros. No alto da pirâmide social, a situação se inverte: entre o 1% mais rico da população, nem 18% são negros.

E mais: a grande maioria dos profissionais com maior qualificação, como engenheiros, médicos e advogados, é branca. Nas 500 maiores empresas do país, negros ocupam 4,7% dos cargos de direção e 6,3% dos cargos de gerência. Pouco mais que 9% da população negra tem pelo menos 12 anos de estudo (em comparação a 22% dos brancos). Além disso, num país violento como o nosso, um homem negro tem oito vezes mais chance de ser vítima de homicídio que um homem branco.

Luther King foi uma pedra de esperança para a população negra dos Estados Unidos. Precisamos, da mesma maneira, tirar uma lasca da nossa montanha de desespero e ajudar a construir um futuro melhor para todos, independentemente da cor da pele de cada um.

Coluna publicada no jornal O Globo 01/02/2022

Combate à pobreza Energia Solar esg Favela MEIO AMBIENTE Tecnologia urbanização

Favela solar

As últimas semanas nos deram amostras do potencial destrutivo de eventos climáticos extremos. As cenas de cidades submersas na Bahia, em Minas Gerais e no Norte ficarão coladas em nossas retinas cansadas de testemunhar desastres evitáveis. As chuvas intensas, aliadas à estiagem no Sul, foram manifestações locais de uma crise ambiental e social que desconhece fronteiras.

Esses fenômenos, que tendem a ficar cada vez mais frequentes, nos colocam em uma encruzilhada. Nossa geração é provavelmente a última que tem a oportunidade de fazer algo para alterar de maneira significativa o rumo das mudanças climáticas. Ignorar essa responsabilidade equivale a sentenciar as próximas gerações a um futuro de incerteza.

 Ajude agora as vítimas das tempestades

Se nada for feito, resta torcer para que funcione a empreitada de colonizar Marte, propagandeada por Elon Musk, o bilionário fundador da SpaceX – se bem que duvido que os brasileiros mais pobres pegariam carona nessa arca da salvação interplanetária. A solução para a crise ambiental passa por Marte, sim, mas não o distante planeta frio – eu me refiro à favela tropical ensolarada.

Gerando Falcões no combate à vulnerabilidade social

Marte, em São José do Rio Preto (SP), ganhará infraestrutura de placas solares que a tornará a primeira favela do Brasil totalmente autossustentável em geração de energia elétrica. É um projeto pioneiro na América Latina e, talvez, no mundo. Com cerca de 240 residências atendidas, a instalação dos equipamentos será custeada pelo Banco BV, que dá assim um exemplo de como transformar a tão falada agenda ESG (ambiental, social e governança) em ação prática.

A autonomia energética sustentável da Marte é parte do projeto da Favela 3D (digital, digna e desenvolvida), implementado pela Gerando Falcões, que busca transformar aquela comunidade em uma verdadeira base de lançamento de tecnologias sociais. Lá, testamos projetos pioneiros para primeira infância, empoderamento feminino, capacitação profissional, reurbanização e muito mais. Na Marte também estamos implementando o projeto Decolagem, que busca soluções personalizadas e mais eficientes de combate à pobreza, com a ajuda de algoritmos e da ciência de dados. Acredito que todos os agentes sociais – governos, iniciativa privada, organizações da sociedade civil – deveriam perder o medo de implementar ideias ou tecnologias pela primeira vez.

Não se trata de vaidade de querer chegar primeiro – nossa luta, afinal, é coletiva. A questão é que a crise atual pede soluções que ainda estão por ser inventadas. Nesse sentido, temos a obrigação de inovar. Nosso compromisso com as próximas gerações é apostar em conceitos disruptivos que permitam não apenas melhorar processos, mas levem a verdadeiros saltos de desenvolvimento humano e social. Essa é a escala em que devemos atacar nossos problemas.

O combate à pobreza e a proteção ao meio ambiente são agendas que precisam andar de mãos dadas. Com a transformação da Marte na primeira comunidade solar e autossustentável do Brasil, damos mais um passo na direção de um futuro melhor para nossos filhos e netos – e sem depender de vaga em foguete de gringo.

Coluna publicada no Jornal O Globo em 18/01

Combate à pobreza desigualdade social Favela

O que é vulnerabilidade social?

Em primeiro lugar, o conceito de vulnerabilidade social é multifacetado, complexo e diz respeito ao contexto econômico e social de determinado indivíduo ou grupo, relacionado ao seu nível de fragilidade moral e/ou material. Então, pode-se dizer que uma pessoa não nasce vulnerável, mas torna-se pela falta de acesso e apoio da sociedade e do governo.  

De acordo com todas as compreensões do termo, existem diversos processos de exclusão social até a violação dos direitos desses indivíduos e grupos. Isso de acordo com o nível de renda, a localização geográfica, saúde, educação, etc. 

Entretanto a vulnerabilidade social define-se por pobreza, privação, fragilização de vínculos afetivo-relacionais e de pertencimento social. Além disso, a situação de vulnerabilidade social tem relação direta com o resultado negativo entre a estrutura material e o acesso a oportunidades socioeconômicas e culturais que provêm da sociedade, do mercado de trabalho e do Estado. Desse modo existem alguns tipos de vulnerabilidade social, destacados a seguir.

Continue reading “O que é vulnerabilidade social?”

2022 Ano novo Favela Retrospectiva

Ano novo, favela nova!

Ano-Novo é sempre um bom momento para refletir sobre o passado e projetar o futuro. O ano de 2021 foi trágico para os brasileiros. Atingimos a marca de mais de 600 mil vidas perdidas para a Covid-19, com uma crise econômica e social que trouxe de volta antigas mazelas, como a fome.

Foi um ano de dificuldades, mas também de aprendizado. A sociedade brasileira parece ter amadurecido a ideia de que o combate à pobreza é uma responsabilidade coletiva, com consequências diretas sobre a vida de todos nós. Diante da tragédia da pandemia, quebramos recordes de doações e demos visibilidade inédita ao trabalho do terceiro setor, especialmente das entidades que atuam na ponta e conhecem de perto o dia a dia das periferias brasileiras.

O que mais espero para 2022? Que esse impulso de solidariedade se transforme numa verdadeira tomada de consciência, fazendo com que todos os atores sociais se engajem no combate à pobreza de maneira permanente. Sempre digo que o sentimento que promove mudança social não é a culpa, mas a responsabilidade.

Edu Lyra na Favela Marte, primeira favela 3D do Brasil.

Nós, que atuamos na área social, também temos muito trabalho pela frente. É preciso explorar com muito mais afinco as possibilidades abertas pelas novas tecnologias aplicadas a uma agenda social.

Nos últimos dois anos, a Gerando Falcões mobilizou mais de R$ 100 milhões para o combate à fome, doados por cerca de 120 mil pessoas no Brasil e no exterior. Todo esse montante foi arrecadado via campanhas digitais.

Lançamos também o Programa Decolagem, em parceria com a Accenture e aporte de R$ 1 milhão da Fundação Lemman. A ideia central do programa é colocar a ciência de dados a serviço do combate à pobreza, reunindo informações de famílias moradoras de favelas e, com a ajuda de algoritmos, desenvolver estratégias personalizadas de intervenção. O Decolagem é uma ação social piloto, pensada para combater a pobreza de maneira mais efetiva, não massificada, e para evitar o retorno a situações de vulnerabilidade.

Edu Lyra e sua mãe, dona Gorete em Nova York

O ano de 2021 também foi aquele em que a Gerando Falcões deu voos internacionais. Realizamos dois jantares de arrecadação nos Estados Unidos, um em Nova York e outro em Miami. Foram eventos que reuniram parte do PIB nacional para discutir a importância de contribuir com a redução das desigualdades em solo brasileiro.

Para além dos valores arrecadados, pude formar uma rede de contatos no exterior, firmar parcerias para a Gerando Falcões e, é claro, afiar meu inglês. Pude também conhecer de perto a cultura de filantropia madura que existe na sociedade norte-americana, um exemplo que deveria inspirar nossas elites e nossa classe média.

Tudo isso me permite olhar com otimismo para 2022. Em primeiro lugar, entendo que o universo digital não chegou para “competir” com o elemento humano, mas para nos ajudar a construir um novo mundo possível. A tecnologia é a chave para construirmos uma nova favela — digna, digital e desenvolvida.

Que venha, então, mais um ano! Em 2022, estou ansioso para testar ideias inovadoras, algumas até consideradas malucas, e descobrir quão longe podemos fazer avançar a agenda social em nosso país. Quero continuar tentando, aprendendo e inovando. Vaikidá!

Favela pobreza Tecnologia terceiro setor

Combate à pobreza é tech

Você já ouviu falar de NFT? É uma sigla em inglês para non-fungible token, ou “token não fungível”. Traduzindo: é a representação digital (token) de um ativo de caráter exclusivo, único, insubstituível, como uma obra de arte — ou seja, um ativo “não fungível”.

Num mundo digital, em que podemos copiar e compartilhar indefinidamente qualquer conteúdo, o NFT funciona como um certificado de autenticidade, protegido pela mesma tecnologia usada nas criptomoedas, conhecida por blockchain, a comprovar que determinado indivíduo possui o “original” de uma obra de arte virtual.

O que isso tem a ver com o combate à pobreza no Brasil? Muito mais do que pode parecer à primeira vista. Quase todo final de semana passo pelo menos uma hora conversando com Leonardo Framil, presidente da Accenture na América Latina, um amigo que sempre tem muito a me ensinar sobre tecnologia. Ele insiste na importância de a Gerando Falcões se antecipar às tendências e de não ter medo de testar o novo. Eu, que sou apenas um aprendiz nesse universo, tento seguir seus conselhos.

transformação digital

 

Na semana passada, promovemos, com a BMW e o artista Gabriel Wickbold, o primeiro leilão de NFTs do Brasil. Gabriel produziu cinco obras virtuais e, nesse encontro com jovens empresários em São Paulo, arrecadamos R$ 300 mil. A interseção entre arte, negócios e tecnologia é uma maneira inovadora de levantar recursos para combater a pobreza.

Confesso que, no começo, fiquei apreensivo com a ideia. Afinal, como seria possível organizar um leilão sem objetos físicos? Quem iria querer comprar uma obra de arte para colocar não na sala de casa, mas na “nuvem”? Será que o evento daria certo?

Foi preciso vencer resistências. Estamos diante de um mundo novo, cada vez mais digital, que precisa ser rapidamente assimilado por nós, do terceiro setor. Conceitos como NFT, criptomoeda, blockchain, metaverso e outros podem ser enigmáticos para quem não cresceu imerso na cultura digital. Mas têm de chegar à favela, onde podem se transformar em armas poderosas de combate à pobreza e de fomento a novos modelos de negócios.

Leia agora nosso post sobre transformação digital e o terceiro setor

No setor ambiental, é possível adquirir tokens que representam uma árvore plantada e, pelo metaverso — um ambiente digital, onde a comunidade de doadores pode interagir e acessar algumas funções exclusivas —, acompanhar o crescimento dessa árvore em tempo real.

Por que não importar soluções parecidas para a favela? Em vez da simples doação, seria possível adquirir um token representativo do valor necessário para transformar uma vida — um ativo que se valoriza à medida que as condições de vida num território melhoram. Ou construir metaversos em que a comunidade de doadores pudesse acompanhar em tempo real a construção de casas ou a implementação de projetos sociais.

Sou apenas um aprendiz, mas aprendo rápido. O sucesso do primeiro leilão de NFTs no Brasil mostrou que as novas tecnologias abrem caminhos promissores não apenas de captação de recursos, mas também de gestão inteligente e segura desses recursos.

Também sou otimista. Sinto que ferramentas como os NFTs podem viabilizar um salto qualitativo para erradicar a pobreza. Basta estarmos dispostos a aprender e a abraçar o novo.

Coluna publicada em 21/12/2021 no Jornal O Globo

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coluna edu

desigualdade social Favela Tecnologia

Competindo com robôs

Num mundo globalizado, é comum que decisões tomadas no Vale do Silício, em Pequim ou Bruxelas afetem mais nosso país do que aquelas saídas de Brasília. Ou que uma criação tecnológica patenteada por uma universidade alemã ou sul-coreana vire de cabeça para baixo o funcionamento da economia nacional. No debate sobre inovação, o Brasil ainda está em busca de um assento na mesa dos adultos, e essa falta de protagonismo nos coloca em posição de risco.

Para a população da favela, creio que o maior desses riscos é a automação. A substituição da mão de obra por robôs e drones multiplicará o rol de habilidades mínimas exigidas pelo mercado. Vagas em galpões, serviços de entrega e linhas de montagem desaparecerão, reduzindo a oferta de trabalho para quem tem menos escolaridade.

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A história de uma amiga, Talita Ribeiro, ilustra bem os riscos — mas também as oportunidades — da automação da economia. Recém-divorciada, ela se mudou para Delaware, nos Estados Unidos, e passou a trabalhar num armazém da Amazon. Conheceu gente do mundo inteiro, de todas as classes sociais. Ficou fascinada pelos robôs — braços de metal gigantes, articulados — e pelas esteiras, verdadeiras veias daquele organismo. Guiada pela curiosidade, entrou para um programa de aprendizado em mecatrônica e robótica mantido pela própria empresa. Era o início de uma nova carreira. Muitos cursos e muitas horas de estudo depois, hoje minha amiga — uma das poucas mulheres na sua área — é responsável pela manutenção dos robôs.

Talita pôde trilhar esse caminho porque teve incentivo para se qualificar. Mas disse estar preocupada com suas antigas colegas de trabalho — mulheres negras, latinas, imigrantes — que não poderiam conciliar uma rotina de estudos com seus dois ou três empregos. Está ciente de que, no médio prazo, o emprego dessas pessoas está sob risco.

Populações socialmente vulneráveis — do imigrante nos EUA ao morador de favela no Brasil — precisam de políticas públicas que garantam sua chance de requalificação profissional diante do tsunami da automação. Robôs são mais eficientes, o que é bom para o mundo dos negócios. Não há como competir com eles. O que temos de fazer é requalificar a mão de obra para as pessoas não se tornarem supérfluas nessa mudança inevitável.

Quando o escritor Yuval Harari esteve no Brasil, perguntei-lhe o que deveríamos ensinar hoje aos jovens das periferias. Yuval ponderou que é muito difícil pensar numa resposta, pois, dado o ritmo da evolução tecnológica, algo ensinado hoje poderá estar obsoleto em uma década. A possibilidade de erro é muito alta.

Ele então sugeriu que, antes de ensinarmos qualquer coisa, nos preocupássemos em ampliar o repertório emocional dos jovens, para que eles saibam lidar com a possibilidade, absolutamente real, de que suas profissões podem desaparecer em questão de anos — e, mesmo assim, tenham força interior para se reinventar e construir novas carreiras.

O Brasil tem pela frente esse grande e urgente desafio. Combater a pobreza, afinal, é também garantir que os jovens da periferia tenham condições de competir no ambiente cada vez mais tecnológico e automatizado que se desenha para as próximas décadas.

Texto publicado no Jornal O Globo, em 07/12

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coluna edu

Combate à pobreza Nova York

Do mundo para a favela

Minha temporada em Nova York está chegando ao fim. Depois de quatro meses na metrópole que, mais que um ícone do capitalismo, é conhecida por lidar com complexidades econômicas e sociais, preparo-me para voltar. Saí do Brasil, mas o Brasil não saiu de mim: da favela para o mundo, do mundo pra favela.

Edu Lyra e sua mãe, dona Gorete

Considero cumprida a missão de ter ajudado a viabilizar o estabelecimento do escritório internacional da Gerando Falcões, liderado por Mauricio Morato. Ainda há uma longa e sinuosa estrada pela frente, sim, mas podemos olhar pelo retrovisor e constatar que parte do caminho já foi percorrido.

Levantamos o equivalente a quase R$ 5 milhões em diversas ações. Só um jantar aqui, organizado pelos empresários e amigos Carlos Brito, Cláudio Ferro e Jorge Paulo Lemann, foi responsável por 60% dessa arrecadação. Num evento similar em Miami — com apoio da XP, Accenture e dezenas de embaixadores —, captamos mais R$ 1,4 milhão. Outros doadores também se fizeram presentes ao longo desse período.

Dinheiro é importante para financiar causas sociais — mas não é tudo. Por isso dediquei parte do tempo no exterior a construir pontes. Novas relações foram criadas. Desenvolvemos comunidades de apoiadores. Tudo isso contribui para a agenda de combate à pobreza. A favela terá muitos frutos a colher nos próximos anos. E continuamos plantando. No próximo ano, iremos a Londres, Lisboa e Boston, cidades onde estamos mapeando parceiros e redes de pessoas que queiram usar sua cidadania para reduzir as desigualdades em nosso país.

Não se faz isso tudo sem inglês. “Você precisa aprender inglês”, cantava Caetano Veloso em “Baby”, para irritação dos puristas da língua portuguesa. Mas o compositor tinha razão, precisamos aprender inglês. Quando aqui cheguei, the book was on the table. Ainda está, e sei que o livro nunca mais sairá da minha mesa. Mas, estudando na Kaplan, com bolsa do STB, evoluí.

Tem sido um curso intensivo, com aplicação instantânea. Um pouco do que aprendi em aula usei na semana passada no Bloomberg New Economy Forum, em Cingapura, onde, ao lado de Lemann e Edu Mufarej, representei o Brasil. O evento contou com a presença de chefes de Estados, ministros, empresários e inventores sociais da Ásia, África e América Latina. Apresentações de gente como a ex-secretária de Estado americana Hillary Clinton e Bill Gates, que, por meio de sua fundação, doa bilhões de dólares a países do mundo todo para combater as mazelas da pobreza. Consumi conteúdo de ponta, participei de reuniões estratégicas, debati a reinvenção das cidades.

O combate à pobreza precisa ser uma agenda global, coordenada em rede, com envolvimento de toda a sociedade. Estamos numa encruzilhada econômica, social e moral. A pobreza em qualquer lugar é uma ameaça à estabilidade global. Transformar a pobreza em peça de museu precisa ser a prioridade número um, não apenas da Gerando Falcões, mas de todos os cidadãos, em todas as partes do mundo.

Minha mãe me ensinou: “Não importa de onde você vem, mas para onde você vai”. Eu sei para onde eu vou. Vou para onde a causa social me chamar. Vou para o Brasil. Bye-bye, Nova York. Hello, Guarulhos.

Coluna publicada no jornal O Globo em 23/11/2021

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coluna edu

Favela, uma nova Amazônia

O mundo se comove com a situação da Amazônia. Com razão: a floresta é uma das mais ricas em biodiversidade, serve de morada a vários povos originários e desempenha papel fundamental na regulação do clima. Se a Amazônia está em perigo, o planeta está em perigo.

Como os países já entenderam essa lição, há engajamento em escala global. O mundo desenvolvido faz aportes milionários para garantir a preservação da floresta e implementa sanções econômicas a quem insiste em lucrar com a destruição do bioma. A Amazônia é percebida como um desafio para a humanidade, e isso une lideranças políticas e empresariais dos quatro cantos do mundo.

A favela precisa se tornar uma nova Amazônia. A comunidade global precisa aprender que a miséria em qualquer parte é uma ameaça concreta à estabilidade do mundo. Logo, a situação da favela é também problema de todos nós.

O mundo ainda não conhece o valor da favela. A periferia tem garra e resiliência contra um Estado que teima em negar seus direitos mais básicos. É criativa, desenvolvendo tecnologias sociais altamente sofisticadas para garantir sua sobrevivência. A periferia gera oportunidades, mesmo em territórios que foram ignorados e segregados durante séculos.

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Assim como lutamos pela preservação da Amazônia, é preciso lutar também pela preservação da vida e da dignidade humana na favela. Não se trata, é claro, de espalhar a miséria, mas justamente de combatê-la, para garantir a sobrevivência física e cultural da população que habita esses territórios. As favelas do Brasil, da Argentina, da Índia, da África do Sul ou de qualquer outro lugar são o coração pulsante da humanidade.

Acabamos de realizar o jantar da Gerando Falcões em Nova York. Com a ajuda dos anfitriões Jorge Paulo Lemann, Claudio Ferro e Carlos Britto, reunimos famílias e empresários interessados na causa da favela e angariamos R$ 3 milhões, que serão integralmente investidos no enfrentamento à pobreza no Brasil.

Só conquistamos esse aporte porque convencemos parte do PIB brasileiro de que a favela é responsabilidade de todos. Essa mensagem ainda precisa alcançar as lideranças do mundo desenvolvido, os bancos internacionais, as grandes fundações. A riqueza do mundo ainda não está unida buscando soluções para o problema da miséria.

Mas sou otimista por natureza. Circula entre tenistas profissionais a ideia de que um dos segredos do campeão Rafael Nadal é a insistência. A cada partida, a cada rally, sua dedicação é tão grande que, em determinado momento, acaba dobrando o adversário.

Gosto dessa anedota porque devemos encarar a favela da mesma forma. A sociedade precisa deixar claro que não desistirá enquanto não transformar a miséria em relíquia do passado. Para nossos planos sociais, organizaremos mais jantares, mobilizaremos mais talentos para o terceiro setor, recrutaremos mais vozes influentes, levantaremos mais recursos.

Precisamos deixar de tolerar o intolerável. Se o mundo pôde se conscientizar a respeito dos problemas ambientais, transformando a Amazônia em preocupação global — mesmo que seus problemas estejam longe de ter sido superados —, podemos fazer o mesmo com a miséria e a desigualdade. Reconhecer o valor da favela significa lutar pela preservação do melhor que a humanidade tem a oferecer.

Coluna, Edu Lyra, 14/09, O Globo.

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